segunda-feira, 20 de julho de 2009

Desfalecimentos

Ela em seu diário:
Nossos corpos eram os mesmos, mas as cabeças não mais. Nossos perfumes eram os mesmos, mas os aromas estavam totalmente diferentes. Nossos corações que antes pulsavam ritmados por uma valsa romântica, agora soam como um réquiem, estando cada qual num tom distinto. Nossas mãos que antes cumpriam um ritual mágico, o qual resultava numa completude magnífica, hoje estavam secas, desajeitadas e incompatíveis. Nosso beijo, inebriante e entontecedor, que invadia as recordações mais ternas, se tornou um ato banal, frívolo e cálido como um aperto de mão ou até mesmo um bocejo. O sorriso que antes estampava um colorido indescritível em ambas as faces, era agora de uma tonalidade amarelada, sem vida.

Do poeta a ambos, diante do pôr-do-sol:
- Irei recitar uns versos de lua e sol, ele será o sol e você a lua...

Uma concepção dela:
Ele era realmente o sol naquele exato momento que estava a se pôr em meu peito, depois de ter iluminado tantas horas. O sol desfalecia sob as águas turvas do mar, assim como ele que desaparecia entre um turbilhão de sentimentos, que eram de toda natureza menos a de amor.

Dele para o espelho:
- Ela estava encantadora como sempre fora, tinha os gestos e as palavras firmes como outrora, porém os pensamentos e olhares perdidos como nunca. Era, para mim, a mais conhecida dentre as mulheres, porém a mais enigmática de todas, hoje estava além do que já fora um mistério, que há tempos tento desvendar, sem sucesso.
- Sem falar no poder que exerce sobre mim... o seu colo robusto, os seu lábios grossos, a sua inconstância, os seus muitos ‘eus’ que me entontecem, me apetecem e me causam insônias, sentimentos e desejos tão intensos que me arrebatam e me tiram a lucidez.
- E estava ali ao meu lado, mesmo que fosse apenas fisicamente. Nossos corpos unidos sob o pôr do sol, como no sonho, ou nas reticências de um “felizes para sempre”. Tudo estava perfeito até o tempo, naquele fim de tarde, abriu uma exceção e parou de correr.
- NÃO, isso não aconteceu realmente. Irreal, talvez, mas era pra ter ocorrido, como estava em meus planos. Ela já não é mais minha. O seu corpo não me pertence, menos ainda a sua alma. Falhei no único ponto em que nunca me permiti falhar. Ela se foi carregando na mala o meu oxigênio e o meu sangue, minha alegria, minha vida...

E aos berros:
- Mudou! Tudo mudou!
- Ah, o amor... não, ele não...

Algumas horas depois ela recebe uma ligação que a deixa consternada e a paralisa:
- ... foi suicídio.

Um comentário:

  1. A acepção de fim de relacionamento sempre está de alguma forma associada ao trágico, os fins sempre são tristes e nao raras vezes devido à passionalidade própria às relãções movidas por assomos de espanto.
    E a surpresa ao descobrir que um sentimento 'desfaleceu' nao deixa de ser triste, a tristeza que os fins carregam nos ferem mortalmente, 'um suicídio' [morremos um pouco com o fim das paixoes]

    Excelente texto Hortência :D

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